O SESC Vila Mariana promoveu na última terça-feira, dia 26, um debate sobre Jornalismo e Ficção com Eliane Brum. A autora lançou nessa oportunidade seu livro, Dignidade, que comemora os 40 anos dos Médicos sem Fronteiras. Eliane e outros oito escritores, retratam os horrores e as inesperadas alegrias vividas em zonas de crises humanitárias. Para isso, viveram a rotina dos profissionais e das pessoas que o mundo ignora.
A jornalista mencionou sua viagem para a Bolívia e diversas lembranças da experiência que teve acompanhando a população auxiliada pelos MSF. O grande problema que presenciou foi a Doença de Chagas, moléstia que afetou a maioria das famílias das quais esteve em contato. Ela ressaltou, com tristeza, os olhos de velha de Sônia, garota que conheceu durante sua estadia no local. A menina vivia na iminência -da morte de algum membro da família ou a própria. Infelizmente, Sônia não exagera quando pensa assim. Pela maioria indígena do país, a palha e materiais similares são constituintes das moradias, sendo as maiores responsáveis por abrigar o vetor do protozoário.
Eliane lamenta a situação desses bolivianos e tantas outras pessoas no planeta que sofrem pelas más condições da localidade onde vivem. A repórter acredita que sua função é contar as histórias desses seres humanos em dificuldades para todo o mundo. Dessa forma, saem da invisibilidade, podendo ser vistos e ouvidos. Foi isso que pode dizer à Sônia quando, no momento de despedida, a menina pediu para que ela não a deixasse morrer.
Esse momento, segundo a escritora, foi precursor de uma grande crise quanto a sua profissão. Contar histórias era o seu ofício, sua maneira de expressar a realidade de anônimos, não menos importantes do que as outras. No entanto, para salvar vidas, contar uma história parecia muito pouco. Não seria isso que mudaria a lógica da indústria farmacêutica em não desenvolver tratamentos a um público que não pode pagar por altos valores, por exemplo. A gaúcha mostra que é preciso conviver com a impotência na profissão. Todavia, escrever sobre a dor poderia ser uma forma de chamar a atenção dos apáticos ao que acontece, onde vivem as agonias de seres humanos comuns. Como compartilhar o pesadelo e, talvez, transformar os leitores.
Comparando o jornalismo à ficção, Eliane diz que certas realidades são tão irreais que precisam sem reinventadas para parecerem reais. Foi assim que entrou no mundo da fantasia com seu primeiro romance, Uma Duas.
Jornalista há 25 anos, Brum afirma o perigo da aceitação da mediocridade. Segundo ela, é simples acreditar que é impossível fazer bom jornalismo ou agir com ética e tomar a vida por injusta. Demasiadamente simples, aliás. Logo, defende a necessidade de cada ser humano criar sentido para a vida. Apesar do caos, vê beleza na pobreza, na desesperança, no terrível. Por isso, defende que encontrar, escutar e espantar são etapas da criação do novo, quando a realidade já conhecida precisa ser mudada para que faça um novo sentido aos viventes.
Escutar não só as palavras, mas também os silêncios, gestos e hesitações. Afinal, boas histórias pedem mais trabalho e melhor apuração para entregar a realidade completa ao leitor, fazendo, assim, a diferença. Aguentar o vazio ou ficar sem saber faz parte da profissão. No fim da palestra, Eliane afirmou “Meu compromisso não é com a audiência, é com o que julgo importante”. Quando perguntada, sugeriu como um bom contador de histórias Aldário Dantas e suas publicações em O Cruzeiro, provas de resistência à ditadura.
“Sempre Um Papo- Literatura em Todos os Sentidos” promove a difusão do livro e do seu autor, com mais de 4.500 eventos e um público estimado em 1,5 milhões de pessoas. No último evento no SESC Vila Mariana cerca de 90 pessoas compareceram para escutar as histórias de Eliane. Entre os presentes, muitos jornalistas e estudantes de jornalistas prestigiaram o encontro e deixaram o auditório, certamente, com novos estímulos para perseverarem em suas carreiras.

