Todo Dia é Sempre a Mesma Coisa

     

Sou notívago e amante da madrugada. Acordo no meio da noite, vago pela casa, empurro portas, derrubo objetos, quebro o que estiver à vista… faço qualquer parada pra ser atendido. Esta é a minha natureza.

De repente, acordo no meio da noite, vago pelo quarto escuro em ritmo lento, passos preguiçosos. Arrisco um miado estéril… Ela não acorda. Derrubo algum objeto… E nada!Ela não acorda.

Subo na cama, encosto a minha cara na sua, mio quase que chorando… ela parece dormir um sono letárgico dos Deuses. Mordisco seu nariz, sua pele, seu braço. Seu perfume se mistura ao cheiro de incenso… Será cipó dos sonhos, breuzinho ou fênix? … já ouvi ela dizer que são incensos naturais e ela sempre acende antes de dormir. Seu rosto cansado, um semblante triste, de quem perdeu o trem na estação.

A noite avança… Somente delírios passeiam pela madrugada. Na escuridão não consigo ver as lágrimas rolando, mas posso sentir seu rosto molhado. Não!

Não é suor. Na televisão disseram que a frente fria havia chegado. Posso ouvir ecos do seu grito… mas ela dorme. Dorme profundamente. Parece sonhar.

De vez em quando se move, emite um grunhido, franze a testa, mexe os lábios como quem força um segredo.

Preguiçoso e ainda sonolento fito-a apenas para admirá-la. Ela se mexe, se vira e revira. Suspiros ecoam na escuridão! Lembro-me da primeira vez em que ela sorriu… era madrugada de dezembro… não era natal, nem ano bom, nem reveillon,estávamos em pleno verão. E ela nem gosta de verão, mas sorriu lindamente. Parecia estar em plenitude. Eu a admirava sentado como um faraó.

Era assim que meu ex-pai (existe ex – pai?) falava desta minha posição.

Foi um negócio tão mágico que eu ronronava compulsivamente. Até brincamos… ela me empurrava, me jogava na cama,ríamos feito crianças. Eu mordiscava suas mãos, ameaçava arranha-la, fazia cara de bravo, mas no fundo estava feliz por vê-la mais esperançosa, mais leve, bela, livre e solta. Parecia que o momento era de eterna bonança! Naquele momento, promessas de amor

incondicional foram tatuadas em nossas almas.

Na realidade, nossa história teve início numa manhã fria e chuvosa de dezembro de 2004, no Rio,quando ela,sorridente e transbordando felicidade aos quatro cantos do mundo foi me buscar em um Pet Shop. Sim! Fui adotado! E foi amor à primeira vista.

A disputa era acirrada… meus irmãos miavam por socorro…queriam um lar aconchegante assim como eu! E eu nem era o mais sedutor. Todos que ela pegava, grudavam as unhas em sua jaqueta. Ela era extremamente sedutora e fiel! Ali o destino nos uniu.

Vivenciamos primaveras de esperanças, verões de brincadeiras, outonos de acolhimento e invernos de decepções.

Um dia a música sumiu, seguido de um grave ruído atemorizante… dias e noites horripilantes…ela ia e voltava… E chorava… eu a via se definhando.Afundada no mesmo quarto,parecia mergulhar em suas próprias desilusões…o telefone não parava de tocar,armários sendo desfeitos,caixas sendo lacradas,vazio,lágrimas…o vestido branco ficou no armário.

Lágrimas, soluços, gritos… silêncio. Logo o silêncio seria quebrado pela mudança.

De repente ela me coloca na bolsa… barulho.pessoas falando,choro,abraços,trânsito infernal,buzinas de carros estridentes,barulho da chuva,horário de rusch…era sexta-feira…motor do ônibus. Eu já estava sonolento… miava sem forças…e ela chorava sem forças…noite adentro,noite afora.

Mudamos de cidade, de Estado (não de estado), de casa, de ares… mudamos de idade. Pra mim, encarar o desconhecido. Pra ela, enfrentar o passado que há muito havia deixado pra trás.

Eu a acompanhava estoicamente, de cabeça erguida, misturado as caixas de papelão,livros,sacolas e malas.

Cursos 24 Horas

Era a hora de arrumar o armário,a vida. Como se arruma a vida?

Noites frias… nada para nos aquecer,nem pijama,nem edredom…enrolávamos ao cobertor para nos escondermos do mundo,fugirmos da dor…

Levantou-se cambaleando, acendeu um cigarro, revirou caixas, olhou fotografias. Bilhetes se misturavam as lágrimas. Às vezes soluçava, olhava-me sem nada dizer… seu coração parecia querer parar,mas eu o aquecia.

Após alguns instantes em letargia, suspiros ofegantes, finalmente ela me atendeu.

Levantou-se, abriu o pacote de ração, me acariciou… e enquanto eu comia furiosamente ela me olhava,em silêncio,em sua dor.

Tudo pra mim era novo… brincadeira…terra…sustos! Barulhos! estranhos barulhos. Eu corria e me enfiava debaixo da cama. E ela continuava calada, cabisbaixa, emanava dor… muita dor…chorava baixinho,se olhava no espelho…lágrimas na madrugada…escondia o pranto. O pensamento tão longínquo quanto perdido. Ela parecia um rio que corria para o mar, desesperada.

Ficava horas fitando o céu… me apresentou as estrelas…quieta, sempre muito quieta… chorando por dentro.

Rotina alterada apenas pelo nascer do sol, quando ela ainda amedrontada com a nova vida velha vida, passava a mão nos livros e saía correndo… só a via durante o almoço… corrido. Ela só me acariciava após o luar… já era noite!

E juntos, vivenciamos primaveras, outonos, invernos e verões se alternarem.

Nessas trocas de estação eu a vi se transformando aos poucos, deixando o peso da dor se diluir e o sorriso renascer aos poucos, embora ela mesmo na dor, conseguisse às vezes soltar lindas gargalhadas.

A cada passo, a cada noite, a cada madrugada, eu a vi abrir timidamente as asas e tentar voar a mais insana das aventuras.

Ríamos nas madrugadas, juntos voltamos a rodopiar pelo céu, atravessamos nuvens densas, noites chuvosas, trovões, relâmpagos… o frio. E sempre creditando na capacidade de amar, de sobreviver a qualquer custo.

Lembrei-me da primeira vez em que ela sorriu. E agora, ela me parece mais madura, mais completa, mais otimista do que nunca. Tudo mudou e ao mesmo tempo, nada, absolutamente nada mudou. Ela deseja mudar… ela sonha…ela quer…e eu também quero.

Sinto-me honrado em acompanhar todo este processo. Ainda não é primavera, mas há motivos para comemorações sim! Estamos vivos e fortalecidos. Estamos juntos!

Não me contento e olho novamente para ter certeza: ela continua adormecida… parece sentir um pouquinho de felicidade,parece carente… parece querer viver.

Deito-me ao seu lado e estico todo o corpo; finalmente posso descansar.

Afinal, temos uma longa caminhada pela frente.

*(carta assinada por Nico, 2anos e oito meses, felino).*

AME OS ANIMAIS, ELES TAMBÉM TEM SENTIMENTOS

O texto é de uma amiga, ela o escreveu há anos e guardou, resolveu publicar para o mundo e me escolheu para fazer isto. Obrigado Con Joon.

    





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