Swordsmith de Profissão, Ferreiro de Coração

Quem nunca desejou ser como aqueles cavaleiros medievais ou um guerreiro samurai, um ninja? Quantas crianças, jovens ou adultos nunca desejou ter uma espada nas mãos como um sinal de virilidade ou para exibir aos amigos? Uma espada é um símbolo com conotações místicas em vários sentidos que nos trás à mente épocas passadas onde num raio de luz surge o salvador dos oprimidos ou o portador da morte envolto em névoas.

A espada presa na pedra que revela o verdadeiro rei puro de coração ou o cavaleiro corajoso que com sua espada enfrenta o dragão. Um samurai destemido seguido por seus soldados sem medo de encontrar a honra na hora de sua morte.

O último desejo do guerreiro viking que segura nas mãos sua lâmina que é a sua passagem para o Valhala em Asgard onde beberá eternamente aos pés de Odin.

Eu sou um swordsmith! Aquele que forja estas espadas.

Um swordsmith é àquele que exerce a arte de forjar espadas que é muitas vezes chamado de ferreiro por falta de um título mais específico em português, porém o ferreiro no conceito real da palavra é aquele que faz trabalhos em geral em ferro, inclusive ferraduras e o próprio trabalho de ferrar os cavalos. Eu acho um termo muito amplo para descrever a minha humilde aplicação da arte da forjaria, pois nunca sequer tentei fazer muitas das criações que um verdadeiro ferreiro era capaz de criar nos idos séculos em que estiveram presentes em vários cantos deste mundo.

Na tradução literal do termo teríamos “ferreiro de espadas” que em português fica muito menos poético e muito mais restritivo porque apesar de um swordsmith não executar todas as obras de um ferreiro, ainda assim faz muito mais do que só espadas. Em muitos casos ele faz suas próprias ferramentas por falta de encontra-las no mercado e principalmente por elas terem que se adaptar precisamente aos formatos amplos por que passam seus trabalhos, pois cada peça criada tem várias etapas de transformação do metal que um dia se transformará numa espada.

A profissão de swordsmith é como uma retrospectiva do modo de vida dos ferreiros do passado e a cada trabalho é como se incorporasse a sua força e sentimentos além do seu espírito rude no tratamento do aço e delicadeza das linhas obtidas na boca da forja.

É notável como o trabalho do ferreiro é tão complexo e cheio lendas que os colocam sempre envoltos em brumas sem nunca revelar nada muito além do calor da fornalha, as batidas ferozes na bigorna, o chiado do aço resfriado no tanque, o avental de couro sujo de ferrugem e as tenazes penduradas nos pilares da oficina. Nos romances e no cinema quase sempre lhes atribuem uma capacidade mágica de transformação dos mais duros materiais da natureza onde suas oficinas são vistas quase como a morada de homens taciturnos com poderes místicos.

Me enche de prazer saber da emoção que muitos sentem sobre o meu ofício e como esta atividade os leva a descobrir mais sobre si e sobre a história de modo geral e as lendas que cercam esta profissão.

Mas não basta apenas saber forjar uma espada, deve-se saber com que propósito elas foram forjadas e as esperanças que foram depositadas nas lâminas do passado. Separar a realidade da fantasia, mas introduzir nas suas criações um pouco da magia de Melrin ou Celebrimbor (ferreiro elfico da trilogia do Senhor dos Anéis). As técnicas de forjamento às vezes parecem uma ciência oculta e há muita dificuldade em encontrar material de referência, mas hoje em dia na Internet há várias matérias só que nem todas tem alguma coisa decente.

Dentro da definição de ferreiro há principalmente duas escolas que se pode citar: O ferreiro moderno e o clássico (medieval). O ferreiro moderno se utiliza de técnicas de forjaria auxiliado por computador ou máquinas de algum modo a facilitar o seu trabalho.

Já a arte da forjaria clássica tenta resgatar a forma de trabalho que eram utilizadas por nossos ancestrais apesar das dificuldades de empregar meios tão rudimentares em comparação aos recursos técnicos de hoje em dia. Hoje se pratica a forjaria clássica em vários países e no Brasil eu não saberia precisar quantos existem, mas não são muitos e não conheço nenhum outro do gênero. Não que eu seja contra a modernização dos métodos de produção, mas eu, como um ferreiro medieval prefiro continuar a aplicar meu coração no forjamento das minhas lâminas perdido nos confins do passado. Sou natural de São Paulo, mas escolhi ter minha oficina no sul da Bahia e mesmo aqui vejo que muitas pessoas se interessam pela arte, tanto que chega a parecer uma novidade e não uma profissão que está desaparecendo ou que já foi absorvida pela indústria na sua maior parte inclusive para a fabricação de espadas.

Eu não posso me julgar um expert no assunto, apenas tenho o conhecimento que aprendi nestes anos em que tenho me dedicado à arte da forjaria e a ausência de material ou de outros swordsmiths no Brasil para nossa decepção, só dificulta ainda mais a transmissão de conhecimento para gerações futuras e para ser franco nunca peguei um só livro sobre este assunto, pelo menos nenhum dedicado exclusivamente à cutelaria. O que aprendi foi fazendo pesquisas com o que caía nas minhas mãos, pois sou um leitor compulsivo e desde muito jovem aprendi a ler nas entrelinhas de livros, manuscritos, folhetos, pinturas, obras de arte e mais recentemente na Internet.

Existem livros sobre espadas antigas, mas em geral são tratados de haraldica ou se detém apenas a catalogar coleções de museus. As melhores informações às vezes estão nas páginas de um livro que nada tenha haver com o assunto, numa escultura antiga ou em uma pintura. Cada um vê uma obra de forma bem particular ou não vê nada.

Uma coisa é certa…

Você nunca vai encontrar estas informações contidas em um único volume e sim espalhadas em vários temas. Além disso só ler não é tudo. Você pode saber tudo sobre o império Romano por exemplo, mas não vê suas armas e desconhece suas origens. O que a maioria das pessoas imaginam é aquilo que hollywood nos passou.

A história da idade média no Japão por exemplo, a batalha de Sekigahara, a ascensão dos Tokugawa, o Shogunato, Oda Nobunaga, enfim, os grandes samurais e seus códigos de conduta nos ensinam mais do que um livro sobre espadas e facas, pois a cultura oriental é muito estimulante realmente e nos ensina muito, mas também nos choca muito em alguns aspectos sociais. É uma riqueza de detalhes que só pode ser compreendida quando se vê o todo da história e como ela se desenrolola. Não só a cultura oriental, a européia também é cheia de detalhes interessantes e aterrorizantes e são nestas pesquisas que vamos descobrindo fatos que nos levam a ter inspiração no trabalho, porque nos fornecem dados sobre as épocas e as verdades sobre a tecnologia, pensamento, tendências, descobertas, etc.

Como fabricante de espadas sempre me perguntam se minhas criações podem ser usadas em lutas reais e não são poucos que desejam esta informação, mas para tirar qualquer dúvida não só sobre as minhas espadas, mas a de outros fabricantes também acho muito necessário explicar um pouco sobre a criação destas obras primas tão desejadas nos dias de hoje.

Tudo que vimos na TV em filmes tem uma conotação muito poética sobre o real uso de espadas. Nenhuma lâmina é tão imune a danos em qualquer embate por mais forte que seja. Veja uma faca de cozinha por exemplo… Por melhor que ela seja para cortar carne não suporta ser batida contra outra faca e sempre ficará uma marca, principalmente no gume. Os guerreiros antigos sabiam dos danos que seriam causados às suas lâminas e que elas ficariam com várias marcas de batalha, mas o maior temor era a quebra da espada durante o combate.

Primeiro: As espadas devem ser usadas com cautela para não causar danos tanto no gume quanto no corpo principal, pois elas não eram feitas para esgrima e sim para quebrar crânios, cortar tendões, pescoços, braços, pernas e estocar o peito e rostos. Eventualmente aparar golpes ou desviar escudos.

As espadas de duelos são os floretes, próprios para este fim. Outro fator importante é que na idade média não haviam grandes exércitos permanentes e sim alguns poucos nobres que dominavam a arte da guerra e geralmente só eram convocados de seus feudos com a proximidade do perigo. O restante das forças eram compostas de camponeses e pequenos lordes quase sempre sem nenhuma técnica de luta e o que contava era a bravura e a fúria com que se entregavam ao combate. Daí os grandes banhos de sangue que ouvimos falar.

Pense a respeito e verá que o grosso dos exércitos mau dominavam táticas de luta e cada embate terminava muito rapidamente com alguém mutilado ou morto. A idéia de esgrima durante as batalhas nos foi imposta pelos romancistas e roteiristas da telona porque fica muito bonito na arte cinematografica, mas na realidade a guerra é uma coisa muito feia de se ver e os efeitos que uma espada pode causar no corpo humano não tem nada de romantico.

Eu forjo espadas reais para serem admiradas como obras de arte, como uma representação física dos sonhos daqueles que tem no espírito a força do guerreiro de outrora e nunca para causar ferimentos seja nos seus donos ou em outras pessoas, nunca para serem portadas como um ícone de repressão e sim de admiração. São réplicas funcionais das espadas de antigamente ou dos mundos de fantasia que existem apenas nas mentes dos seus criadores. O que ofereço é a oportunidade de sentirem nas mãos o peso da lâmina que alimentou os devaneios da criança dentro de cada um.

Ainda estou aprendendo e acho que nesta vida não será possível aprender tudo, mas coloco muita dedicação no que faço, pois um dia sonhei que seria aquele que faria estas espadas brilhantes nas mãos do cavaleiro, a espada na pedra, a morte do dragão, o ferreiro elfico cercado de magia e dominar os segredos do aço.

Comments

  1. says

    Caro Wagner,

    Li seu artigo e confesso que ele deve ter causado em muita gente aquilo que muitas vezes nós mesmos repetimos: “Caramba, isso dar certinho comigo”. Ou seja, o que você relata em palavras e no seu trabalho, é um espelho daquilo que muita gente sente e não consegue expressar. Certamente, alguns que lerem seu artigo, no final darão um discreto sorriso de satisfação e concordância.
    Conheço-o a pouco, através de seu site e alguns trabalhos. Entretanto, o bastante para analisar e declarar mais uma vez que, você consegue com maestria, imprimir arte e sutileza, naquilo que rígido ríspido e grosseiro como um pedaço de aço.
    Parabéns pelo seu trabalho que nos traz de forma retrógada e sincera, aquilo que nossa imaginação incessantemente tateia em busca de clareza para nossas perguntas, inspirações e instintos de cavaleiros.

    Forte Há Braço.

  2. valdir says

    Já pensou em escrever um livro de como forjar espadas e seus respectivos materiais necessários?Te garanto que venderia muito.(Eu seria o primeiro á comprar).

  3. Sidney says

    oi adorei a historia e sempre quando assisto filmes medieval ou ate mesmo filme de samurais fico imaginando como seria maravilhoso criar uma espada ou katana…sempre tive imaginação para criar e sempre adorei espadas mas nem tanto pela arma em si mas a historia e tenho uma visão de criar a minha propria espada afinal não tenho dinheiro para pedir em confeccinar…gostaria de aprender se puder me ajudar em algo fico muito feliz….entre em contato

    att sidney

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