Riqueza é igual à Felicidade?

É sabido que a sociedade brasileira ainda é uma sociedade marcada pela exclusão, pelas desigualdades e injustiças sociais. Nem precisamos mencionar as estatísticas oficiais para justificar essa realidade.

Numa sociedade com essas características, duas lutas são tremendamente travadas no quotidiano social: a da sobrevivência, empreendida pela maior parte da população do país, a fim de acessar e garantir pelo menos o essencial; e a luta por tornar-se rico, ou seja, chegar a um nível de estabilidade e independência financeira capazes de garantir a manutenção e o acesso permanente a bens materiais, sociais, culturais e financeiros e assim ter vida em abundância.

Não vamos refletir aqui sobre as causas das diferenças ligadas ao acesso às oportunidades, tão gritantes entre as classes e os segmentos sociais no Brasil, o que mereceria outro artigo. Interessa-nos destacar neste artigo uma questão central que, segundo nosso entendimento, atravessa e orienta as lutas referidas acima: o desejo de ser feliz. Portanto, a felicidade é o motor que move tanto a luta pela sobrevivência como a luta pela riqueza.

É um direito de todos almejarem a felicidade. É justo que todos queiram ser felizes. Um fato é então inquestionável: todos tomam a felicidade como indicador qualitativo para aferir ou medir o grau de satisfação e de sucesso na vida social. É inegável que todos associem felicidade à riqueza ou riqueza à felicidade.

Trata-se, pois, de uma verdade inquestionável: felicidade é ter e continuar tendo (de forma constante e acumuladamente) bens financeiros, sociais, culturais e materiais em quantidade e qualidade capazes de garantir prazer, sucesso e poder na sociedade, mesmo que, para alguns, isso implique em sofrimento e exclusão de muitos.

Parece que esse ideal ou esse imaginário é o que preside o viver em nossa sociedade. Ele é meta e ação de nossos governos: crescimento econômico/financeiro é igual a maior felicidade. Quanto maior o acesso à rendas (financeiras), maior é a felicidade da nação – classes e segmentos de classe. Inclusive, já se fala no Brasil de uma nova classe média, ou seja, mais gente acessando renda ou aumentando seus bens materiais, financeiros, sociais e culturais.

A pergunta é: riqueza é igual à felicidade? Felicidade é igual à riqueza?

Michael Rustin, professor de Sociologia da Universidade de East London, descobriu em seus estudos que, em sociedades como a nossa, muita gente está se tornando rica, mas não é verdade que estão mais felizes. O Brasil, segundo o relatório de 2011 da World Wealth Report, ganhou 8.400 novos milionários no período de 2009 a 2011. No total, são 155,4 mil milionários.

Rustin, analisando nações como os Estados Unidos e Grã Bretanha, descobriu que a melhoria do padrão de vida das pessoas não está associada a aumento, mas ao declínio do bem-estar subjetivo. Os dados levantados mostraram que, apesar do imenso e espetacular aumento das rendas das famílias americanas, a felicidade por elas declarada era menor. A estratégia de tornar as pessoas mais felizes aumentando suas rendas aparentemente não funciona, mostram estes e outros estudos.

Por outro lado, o que os estudos tem mostrado é o elevado crescimento da criminalidade e uma incômoda e desconfortável sensação de incerteza difícil de suportar, e com a qual é ainda mais difícil conviver permanentemente.

Vivemos, sim, um grande mal-estar que está afetando a todos. Esse mal-estar estaria caracterizando as subjetividades contemporâneas expressando-se no corpo, materializado num insuportável e elevado grau de estresse; no vazio de sentimento, comprometendo o processo de humanização das pessoas; e na hiperatividade, com fortíssimo impacto no aumento das descargas de excitabilidade e violência na sociedade.

Essa realidade, em grande medida, explicaria o aumento da criminalidade e das diferentes formas de violência.

Frente a essas descobertas e constatações, extremamente decepcionantes, que outro valor ou referência utilizaremos para aferir ou medir o bem-estar, o prazer e alegria do viver?

    

Osmar Braga
Sou Pedagogo, Educador Popular e Mestre em Educação. Minha trajetória pessoal e profissional é ampla, sempre vinculada em grande medida ao campo social, tendo atuado no mundo das Organizações Não-governamentais (ONGs), dos Movimentos Sociais e da Escola. Presto assessoria e consultorias à organizações sociais, movimentos e instituições governamentais nas áreas de gestão, planejamento, monitoramento, sistematização, desenvolvimento institucional, processos de formação, dentre outras áreas.

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