REFORMA AGRÁRIA, PROMESSA VAZIA

REFORMA AGRÁRIA, PROMESSA VAZIA
O processo de humilhação e submissão que se passa quando se entra em qualquer movimento sem-terra, deixa os que ali estão, com o passar dos anos, desiludidos, cansados, alguns perdem suas forças, sua disposição, seus filhos crescem e não tem mais os mesmos interesses que os pais. É um tempo que se perde na cidade de lona, tempo precioso, que não tem preço.
Muitos não querem passar por esse processo, e com alguma economia, conseguem passar na frente.

Mas é errado não lhe desejar o próprio mal? É errado pagar por sua comodidade? É justo perder tanto tempo na beira da estrada? Porque lutar contra o trabalhador que economiza e paga para ter um lote sem ficar num barraco? Porque não lutar contra a demora, e entender que essa aparente corrupção, não é por esperteza mas pela demora, pela incerteza que se tem acampado, pelos embargos e desembargos judiciais; pelas promessas vazias; pelas ridículas denúncias que se fazem contra o próprio povo.

Se o vizinho desiste do lote, e cobra de outro pelo tempo de espera, porque tempo é dinheiro, pelos gastos que teve para chegar ali, e tem outro disposto a pagar seu preço, porque me indignar? A menos que eu queira fazer o mesmo e não consiga. Por que lutar contra o próprio povo? Por que aceitar calado a indisposição do governo em realizar a reforma agrária. Esse tipo de situação deveria ser vista como um protesto contra a demora, não como corrupção ou ilegalidade.

Aceitar a humilhação submisso, é ir a favor do sistema. Um sistema injusto, ainda que legal, porque se legalizou a injustiça, não pode ser apoiado e defendido. Não podemos ir contra nossos irmãos iguais, porque conseguem carta de alforria. Se vou contra os que defendem os direitos dos pobres porque favorecem essa situação, então vou contra tudo o que eles estão a representar “o povo”. Se um pobre consegue pagar pelos benefícios de um lote, não significa que é melhor ou mais que qualquer um, nem menos, nem desonesto. Porque a demora do governo em favorecer o povo, torna esse tipo de corrupção algo extremamente justo.

Não se está matando para conseguir um lote, como muitos grandes proprietários fizeram no passado. Ninguém compra terra do governo, ninguém nem dono é de suas próprias terras, se deixar de pagar os impostos, quem tem a terra? O governo. Não são dos “proprietários”, graças aos impostos. Quem não paga seus impostos, perde o direito de continuar em “suas” terras, é a lei, então a terra é do governo, as casas são do governo. A diferença é que uns conseguem se beneficiar mais que os outros, e uns trabalham mais que os outros.

Se o povo pensasse se uniria e se defenderia. Pagar por um benefício que outro pode lhe propiciar, é justo. Mas nem sempre é legal. Pagar pelo benefício que você não tem e talvez nunca terá, é injusto, mas é legal, o governo faz isso. Agora aceitar a injustiça legal fazendo denúncia contra o próprio povo? Isso é imoral.

Juceli Fattori

    


Nascida em 03 de fevereiro de 1972. Nível Superior em Tecnologia da Informação. Em poesia e textos diversos expõe sua visão do mundo em que vive.

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