Os sentidos do verbo além do tempo e da forma

Já expliquei num artigo publicado neste site com o título “segredos do texto jornalístico – jogando com os tempos verbais” sobre o efeito de sentido das formas verbais no presente usadas em manchetes jornalísticas.

Hoje, depois de outras leituras e de reflexões sobre o assunto, todas provocadas pela prática em sala de aula, passo a falar sobre algumas curiosidades semânticas das formas verbais, que extrapolam a moldura fixa do tempo e do modo.

O comum é pensarmos que o presente indica ação que acontece no momento da fala; que o futuro refere-se a algo que ainda não aconteceu em relação ao momento da fala e que o passado menciona fatos que já se processaram antes do momento da fala.

Seria ótimo se fosse tão simples assim. O problema é que muitas vezes usamos o presente para falar de fatos já ocorridos. Acontece muito em relatos jornalísticos e textos de história, com o efeito de dar à narrativa um caráter mais próximo da realidade. Parecer separar o fato da ficção, apesar de ser usado também em resumos de obras literárias e resenhas de filmes.

Além disso, a forma do presente pode ser usada para expressar futuro: “Viajo para Brasília amanhã.” Ora, o verbo indica presente, mas o advérbio de tempo “amanhã” transporta a ação para o futuro. Nesse caso, qual a diferença de dizer “viajarei” ao invés de “viajo”? Parece que é o mesmo efeito que ocorre ao usarmos esse verbo com valor de passado, ou seja, a ação torna-se mais próxima, mais concreta.

O passado também tem suas controvérsias. É o caso, por exemplo, de algumas frases de efeito com valor de futuro condicional. Veja: “Raspou, ganhou”. Ou seja, se você raspar a cartela, você ganhará um premio. Mas existe também o emprego muito praticado coloquialmente de se conjugar o verbo no pretérito perfeito com valor de futuro do pretérito. Acontece em frases como: “Se eu fosse você, não aceitava uma coisa dessas”, ao invés de “aceitaria”.

Diante dessa dinâmica semântica apresentada pelo verbo, percebemos que a forma nem sempre funciona como fôrma para o sentido. Oops! Desculpem pelo trocadilho. O que eu quero dizer é que não podemos definir o tempo de um verbo apenas pela forma que ele apresenta. É preciso considerar o contexto da frase. Assim, se pegarmos um verbo isolado, por exemplo: “enviou”, vamos classifica-lo como passado; porém no contexto de uma frase como: “enviou, chegou” não podemos interpretar os verbos com valor de passado, pois parecem dar uma ideia de futuro.

 

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JOAO ARLEY GONCALVES DE JESUS
Sou professor de Português e Inglês, graduado em Letras na UFV. Gosto de escrever para compartilhar conhecimentos, emoções e opiniões.

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One Response to “Os sentidos do verbo além do tempo e da forma”

  1. JOAO ARLEY GONCALVES DE JESUS

    JOAO ARLEY GONCALVES DE JESUS

    set 13. 2012

    Bem que o editor podia ter criado um link para o artigo a que me refiro no primeiro parágrafo. Mas vou deixar aqui:

    http://www.osabetudo.com/segredos-do-texto-jornalistico-%e2%80%93-jogando-com-os-tempos-verbais/

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