Entre Corinthians, Palmeiras e Palmitos

Para contar esta história, tenho que voltar lá para 1906, ano de nascimento de meu avô materno.

Ele nasceu em Santos, pois minha bisavó, vinda da Itália grávida, por muito pouco não deu a luz à meu avô, no navio que os trouxe.

Histórias como esta, devem existir várias, a imigração que vinha da Europa, trazendo em suas bagagens esperanças em seus corações, e ao mesmo tempo a alegria de tentar uma vida melhor, e a tristeza de deixar seus entes queridos tão distante…….. eram sensações que se misturavam.

Acredito até, que minha Nona, (carinhosamente chamada por todos nós), nunca mais voltou para a Itália, consequentemente, nunca mais viu seus parentes diretos, como pai, mãe e irmãos, mas infelizmente, no passado isto era relativamente comum.

Logo após o nascimento de meu avô, minha bisavó e meu bisavô, subiram a serra, e vieram tentar a vida em São Paulo. A família foi aumentando, e totalizando cinco filhos, sendo quatro homens e uma mulher.

Conforme foram crescendo, o gosto pelo futebol foi se aflorando nos meninos, e como o time original dos italianos na época era o Palmeiras, dois dos irmãos do meu avô, se tornaram palmeirenses fanáticos…..mas meu avô, era corinthiano doente… motivo obviamente de várias brigas e discussões entre os garotos.

Com o decorrer dos anos, meu avô foi se tornando cada vez mais fanático pelo Corinthians, e por sorte, veio à casar com uma espanhola tão fanática por futebol, e pelo Corinthians, quanto ele.

Mas meu avô como a maioria dos corinthianos….. não é simplesmente corinthiano…..é sangue….raça…..força…., ou seja, não existe corinthiano “morno”…..só existe corinthiano “fervendo”, quem é corinthiano, sabe do que estou falando.

Enfim, após o casamento com minha avó, depois de muito trabalhar…..e muita luta, eles conseguiram comprar um terreno em um bairro que na época estava começando, o bairro do Ipiranga.

Fizeram uma boa casa, e logo na entrada, tinha um lindo jardim com muitas rosas, azaléias, cravos, enfim uma quantidade enorme de plantas, e entre elas tinham algumas palmeiras, muito frondosas, com troncos bastante recheados de palmito.

Todos os vizinhos, sabiam do amor do meu avô pelo Corinthians, e ninguém se atrevia a falar algo que o deixasse desgostoso com relação a sua paixão, nem brincadeiras ele admitia, pois apesar de ter um ótimo coração, era bastante severo, e não aceitava desrespeito com seu time de espécie alguma.

Já morando à vários anos nesta casa, mudou-se um vizinho que completamente desavisado… para puxar assunto, encostou no muro que dividiam as casas…… cumprimentou meu avô……e conversa vai, conversa vem…., perguntou se meu avô gostava de futebol….meu avô afirmou que sim….. (acredito que o vizinho até para ser simpático),  disse:

- “Sabe de uma coisa…..já sei qual é o time que o senhor torce…”

- “É mesmo?…..então diga  qual é o meu time de coração?” (perguntou meu avô, ao vizinho)

- “É o Palmeiras…..afinal percebi pela quantidade de palmeiras que o senhor tem plantadas em seu jardim.” (disse o “coitado….pobre……e infeliz” do vizinho)

Meu avô não disse uma palavra se quer….entrou em casa…..pegou o serrote…..cortou todas as palmeiras…..arrancou a raiz para que nunca mais crescessem, e distribuiu palmito para toda a vizinhança.

Nem preciso falar a cara que o vizinho ficou…..

No momento da tremenda “gafe”, segundo minha avó, o pobre vizinho ficou tão assustado, que não falou nada……mas passado alguns dias, foi até meu avô, e pediu muitas desculpas…..dizendo que nunca poderia imaginar, que um descendente de italianos, fosse um corinthiano tão fanático.

Mas no final tudo acabou bem, meu avô perdoou o vizinho, mas nunca mais plantou “palmeiras” em casa.

    

silvana f.g.
Sou Pedagoga de formação, porém escrever, hoje é a minha profissão e minha paixão.....ainda bem que descobri à tempo.

Publicidade

4 Responses to “Entre Corinthians, Palmeiras e Palmitos”

  1. D g fontes

    jul 19. 2011

    Oi Silvana, adorei o seu artigo. Parabens!
    Você contou essa história familiar de uma forma alegre e muito fácil de se entender. Como conhecia os personagens envolvidos, parecia que eu estava vendo um filme.
    Bjs Tia Dirce

    Reply to this comment
    • silvana f.g.

      silvana f.g.

      jul 20. 2011

      Olá Dgfontes,
      Pois é…..sempre penso na cara do vizinho, imagina só…..coitado.
      Obrigado pelo comentário.
      Abraços

      Reply to this comment
  2. sonia

    jul 19. 2011

    Adorei a historia Silvana; adoro esses relatos antigos que mostram como no passado os ‘causos’ entre vizinhos se resolviam. Gostaria que hoje ainda fosse assim… como nas estórias dos acordos feitos com fios de bigode…

    Reply to this comment
    • silvana f.g.

      silvana f.g.

      jul 20. 2011

      Olá Sonia,
      Então do meu avô, tenho algumas passagens engraçadas, com o tempo vou contando, ele realmente tinha este jeito italiano de ser…..era divertido.
      Obrigado pelo comentário.
      Abraços.

      Reply to this comment

Deixe um Comentário




Cursos 24 Horas - Cursos 100% Online com Certificado