DEBAIXO DO SOL ESCALDANTE – CAPITULO 2 – PARTE 1

Marcado o dia da viagem, Leonardo se preparava juntamente com sua mãe para rever seus tios que há muito tempo não via, era mais seguro ir de carro, pois ele não sabia se toda a adrenalina do avião seria suportada por sua mãe.

Foram sete cansativas horas de viagem, por fim chegaram até o interior de São Paulo, onde como de costume os tios apertaram as bochechas do sobrinho e lhe diziam o quanto ele havia crescido e ficado bonito. Verônica estava enganada, o garoto não estava acima do peso e ia pelo menos três vezes por semana a academia.

Seus planos era para que permanecem por ali por uns quatro meses, seu pai estava viajando pelo Brasil em pregações e ficar trancado em casa não seria a melhor escolha.

As comidas de Tia Matilde eram maravilhosas, todos os dias era algo novo e alguma nova receita em seu livrinho que ficava no armário da cozinha. Aos domingos, toda a família se reunia em uma grande mesa do lado de fora e compartilhavam as experiências que haviam vivido durante a semana.

Leonardo estava feliz por estar ali, todas as vezes que estava com seu tio Leandro ele aprendia muito, sobre a vida, sobre garotas e sobre trabalho. Seu tio já havia se casado quatro vezes, as três anteriores não haviam durado um ano sequer, este ultimo, muito abençoado por Deus, já estava beirando os dez anos de união.

Enquanto conversavam, surgiu o assunto que fazia com que o coração do garoto acelerasse. Depois de tanto falar sobre seus relacionamentos, o tio finalmente abriu espaço para o sobrinho.

- Existe alguém então? – perguntou o tio, sorrindo.

- Sim, existe… E essa pessoa está muito longe no momento. – Leonardo mantinha o brilho nos olhos, o mesmo que tinha quando pequeno e se encontrava com Verônica na praça.

- Como assim ela está muito longe? Em São Paulo você quer dizer?

- Na verdade, não. Ela saiu como missionária na Amazônia, muito em breve ela estará de volta.

- E há quanto tempo vocês não se vêem?

- Há praticamente quatro anos.

- E esse amor ainda palpita dentro de você.

- Sim… – respondeu o garoto, mesmo sem saber o significado da palavra “palpita”.

- E você acha que ela nutre o mesmo sentimento?

- Não sei, mas quando ela voltar eu não perderei a oportunidade de pedi-la em namoro.

- E se ela não aceitar?

- Se ela não aceitar?… Bem, nós continuaremos amigos.

- O importante é tentar não é mesmo? Quem sabe desse grande desafio não nasce uma história de amor que se tornará um casamento?

Ainda era cedo para Leonardo pensar na possibilidade de se casar com ela, mas de uma coisa ele tinha certeza. Se, de fato, esse relacionamento vingasse, ele em momento algum hesitaria em se tornar o esposo daquela bela garota.

Do outro lado do Brasil, Verônica repousava sua cabeça sobre um velho travesseiro de fronha marrom, e pensava vários momentos em como seria bom reencontrar o garoto e talvez ter a chance de recuperar o tempo perdido, afinal, Deus não deixaria de honrar quem tanto o honrou.

Após a conversa com o tio, ele trancou-se em seu quarto e teve seu momento íntimo com Deus, ali todas os seus pedidos e agradecimentos eram feitos, o que mais lhe deixava feliz naquele momento era ter a certeza de que estava tudo bem com a saúde de sua querida mãe.

Em pouco tempo Verônica estaria em São Paulo, pelas suas contas, faltavam agora apenas dois meses para se reencontrar com todos. Mas não seria algo fácil, laços de amizade importantes foram feitos naquele lugar por ela, e as pessoas insistiam muito pela permanência da garota.

Mas o seu chamado naquele local havia acabado, agora ela precisava pensar nos próximos passos de sua vida ministerial e pessoal. Os dias de visita na casa da tia de Leonardo haviam acabado também, agora tanto ele quanto sua mãe se dirigiam para São Paulo, aonde reencontrariam o chefe de sua família.

Durante o tempo que permaneceu no carro, Leonardo ia imaginando e se lembrando de quantas coisas já haviam acontecido em sua vida, de quantas histórias havia vivido e do quanto ainda precisava crescer em todos os sentidos, ele iniciaria uma nova fase em sua vida.

Sua mãe dormia calmamente no banco de trás, algumas vezes ele se virava para ter a certeza de que tudo estava bem com ela, sua família era o seu bem mais precioso, talvez o verdadeiro sonho dele fosse ser o líder de uma… Ao lado de Verônica.

Com a noite se aproximando, a chuva na rodovia se tornou mais intensa e todo cuidado era pouco. O carro de Leonardo estava entre dois caminhões, o de trás, que parecia estar com mais pressa, inúmeras vezes tentou passá-los, mas naquele horário os carros não davam folga.

Durante todo o percurso o garoto ficou apreensivo e orava pedindo a proteção de Deus, pois era a primeira vez que ele dirigia na rodovia, ainda mais para um lugar tão distante. Alguns minutos depois, a pista parecia finalmente estar limpa, seria a oportunidade perfeita de o caminhão passar e as coisas finalmente se acalmarem.

Leonardo diminui a velocidade para que se afastasse do caminhão à frente e desse passagem para o de trás, entretanto toda a preocupação que ele demonstrava ter não era correspondida pelos outros dois motoristas.

O caminhão atrás acelerou o máximo que pode e ficou bem próximo ao carro na esperança de ultrapassar o grande veículo da frente, o que ninguém contava era de que logo à frente, passando a parte côncava da rodovia, outro carro parecia também estar com muita pressa.

Com o susto sofrido pelo motorista, sua única chance era empurrar o máximo que pudesse o caminhão para o lado do carro de Leonardo, que precisaria ser astuto, diminuir a velocidade e permitir que o veículo se encaixasse à sua frente, entretanto não foi bem isso o que aconteceu.

Antes mesmo que o garoto pudesse ter qualquer ato, o caminhão que vinha de encontro com o outro impediu qualquer pensamento súbito, sendo assim, o único ato que o motorista teve foi virar o volante com toda agilidade de forma que a única saída encontrada por Leonardo foi empurrar o carro para o acostamento, entretanto não havia acostamento na estrada, após algumas vezes capotando o carro parou próximo a um pequeno lago que havia por ali. Os dois ficaram inconscientes.

Durante um tempo o garoto ouviu sons de alguns animais misturados a um louvor que vinha de seu celular que em momento algum parava de tocar, a previsão era de que chegassem a São Paulo às oito horas, e já eram nove e meia.

Devido à localização o socorro demorou a chegar, tudo o que foi possível fazer para salvá-los foi feito, mas a mãe de Leonardo já era de idade, não agüentara toda a adrenalina e tantas feridas no corpo.

A única coisa da qual ele conseguiu ver foi o momento em que estava sendo colocado na maca, e as vozes dos enfermeiros e dos curiosos ao redor, isso mesmo, muitos carros pararam para ter noção da gravidade do acidente.

Leonardo não tinha força alguma para falar, mas se o tivesse, a única coisa que gostaria de perguntar era como estava sua mãe.

Foram três angustiantes horas no hospital até fazer todos os exames, ninguém lhe informava qualquer coisa sobre onde estava e o que havia acontecido com a outra passageira do veículo.

Logo, quando estava sentado na cama, já devidamente medicado, um dos enfermeiros lentamente se aproximou, e foi quando pela primeira vez teve alguma notícia sobre o estado de saúde de sua querida mãe.

- Eu espero que o senhor seja forte, o senhor só teve alguns arranhões e ficará em observação até amanhã… Entretanto nós fizemos todo o possível para salvar a vida de sua mãe, mas ela estava muito fragilizada.

Leonardo segurou o máximo que pode o choro, sentia-se culpado por sua morte, afinal, era ele quem dirigia. Logo quando o enfermeiro se retirou do quarto, o garoto mesmo sentindo dores ajoelhou-se e orou, entregando a Deus toda a dor que sentia em seu coração.

- Apesar de sofrer e saber que sentirei muito a falta dela, fico feliz de ter a certeza de que neste momento ela está do seu lado Pai.

Durante toda a noite as lágrimas escorreram de seu rosto, a última vez que havia visto sua mãe ela dormia, como se estivesse descansando para o encontro mais emocionante de sua vida!

Por mais difícil que tivera sido essa noite, o pior ainda estaria por vir. Ao ver seu pai, os dois se abraçaram, e choraram juntos, Leonardo ainda se sentia culpado pela morte da mãe, mas em momento algum seu compreensivo pai o julgou, existe um propósito para tudo o que há na terra.

Os cinco primeiros dias foram difíceis, até se acostumar com a idéia de que não veriam mais a mulher que era a base para aquela casa os dois preferiram ficar o máximo possível na igreja.

Quando retornaram, sentiram o vazio que naquele lugar não seria preenchido. Era como se o garoto ainda ouvisse ao meio-dia sua mãe lhe chamando para almoçar. Realmente, não seria fácil suportar tamanha dor.

Em meio a tantos acontecimentos a chegada de Verônica se aproximava, entretanto, o coração de Leonardo já não estava mais tão ansioso por este acontecimento. Foram vários dias trancados dentro de sua casa, a tristeza o consumia de tal forma que ele somente orava e chorava, pedindo que Deus lhe retirasse esta imensa dor.

Verônica arrumava suas malas e se despedia de todas as pessoas que havia conhecido em seu período na Amazônia, aquele momento era uma mistura de tristeza por abandonar aquele local e a felicidade por poder rever sua família.

Já dentro do aeroporto, ela aproveitou que, pela primeira vez em quatro anos, acessaria a internet. Durante o tempo de espera do voo, ela via as fotos de seus antigos amigos da igreja, das mudanças que ocorreram naquele lugar e como Leonardo dentro daquele tempo havia mudado sua fisionomia.

A garota não tinha a mínima ideia das coisas que se passavam em São Paulo, muito menos sobre todo o sofrimento do qual seu querido amigo estava passando, talvez aquele não fosse um bom momento para retornar.

Naqueles dias difíceis, a amizade de Jean foi muito importante para que Leonardo continuasse firme em seus propósitos com Deus, e graças à ajuda do amigo, ele começou a frequentar os cursos para missionário, pelo menos por duas horas ele distraia e fugia um pouco de seus problemas.

Mas não era fácil, cada detalhe de sua casa lhe fazia lembrar de sua mãe, o que fez com que tanto ele quanto seu pai tomassem a decisão de mudar e tentar recomeçar a vida. Pelo menos assim seria mais fácil lembrar, e não sofrer.

O garoto parecia cada dia mais interessado no curso de missionário, talvez as atrocidades sofridas pelos cristãos em outros países lhe fazia perceber o quanto ele ainda precisava crescer em suas experiências com Cristo. Torturas, mortes, perseguições eram alguns dos casos mais frequentes a ataques cristãos, e os países mais intolerantes eram a Coreia do Norte, Afeganistão e Arábia Saudita.

Era terrível perceber o quanto as pessoas sofriam por defender seus ideais, independente de que se tratasse sobre alguma religião, a falta de liberdade indignava o garoto que era totalmente a favor de qualquer tipo de expressão.

Aos poucos sua vontade sobre aprender aumentava a ponto de passar madrugadas pesquisando e tentando entrar em contato com pessoas que estiveram nestes lugares para que pudessem relatar a ele os milagres operadores ali. Entretanto, era quase impossível encontrar alguém que tivesse ido e voltado.

    

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