DEBAIXO DO SOL ESCALDANTE – CAPITULO 1 – PARTE 1
“Querida igreja, a paz do Senhor…
Perdoe-me pela demora de entrar em contato, qualquer meio de informação aqui é vago e a cidade mais próxima é bem longe…
Só queria dizer-lhes que estou muito bem, nesses 2 anos que estou aqui muita coisa já aconteceu na vida destas pessoas, algumas já aceitaram a Cristo e foram batizadas, outras modificaram totalmente suas vidas, isto é o que me anima a continuar com a missão que me foi dada!
Não nego que a saudade está apertando, sair da nossa zona de conforto nem sempre é algo bom aos nossos olhos, mas creio que os planos de Deus são bem maiores para mim.
Estou dormindo na casa de uma família que me recepcionou muito bem, não vou mentir, não é nenhuma mansão e é quase impossível dormir a noite com tantas moscas, mas passar por tudo isso é importante para eu perceber o quanto as pessoas precisam de nossa ajuda!
Pouco antes de chegar aqui fiquei sabendo que um garotinho havia morrido de desnutrição, foi algo que muito me entristeceu, será que ninguém percebe a dor e o abandono no qual vivem essas famílias?
Evangelizar mundo a fora é importante sim, mas muito vezes nutrimos somente nossa vontade de falar sobre Deus para as nações, enquanto dentro de nosso próprio país existem pessoas tão carentes do Espírito Santo.
Espero que todos estejam bem, sinto falta de meus pais e lhes mando um grande abraço, não ter vocês por perto é difícil, mais quatro anos não é nada comparado com a eternidade ao lado de vocês!
Fiquem com Deus.
Verônica”.
A notícia daquela carta se espalhou rapidamente pela igreja, e Leonardo foi um dos primeiros a lê-la. Era possível ouvir em sua mente a voz da garota, o que somente aumentava a ansiedade por vê-la novamente.
Ainda havia mais dois anos de separação, para quem vivia vinte e quatro horas praticamente junto dela foi algo atormentador, mas foi importante, durante esse tempo ele teve oportunidade de conhecer novos amigos dos quais se tornaram muito importantes no seu ministério evangelístico.
Dentre tantos Leonardo conheceu Jean, os dois se tornaram grandes amigos e era a presença dele que fazia a saudade por Verônica amenizar. Os dois inúmeras vezes estavam juntos e conversavam muito sobre um futuro que ainda estava por vir.
- Como você acha que será no fim dos tempos? – perguntou Jean, enquanto guardava os instrumentos da igreja.
- Sei lá, creio que vai ser terrível como diz na Bíblia.
- E nós, ficaremos aqui para presenciar tudo ou seremos arrebatados?
- Creio que aqueles que estiverem em Cristo serão arrebatados e não sofrerão, só voltaremos para a grande batalha.
- Não parece emocionante estarmos em uma batalha da qual já sabemos que iremos ganhar?
- Sim, provavelmente será emocionante.
Qualquer especulação sobre o apocalipse parecia algo vão, não se era possível saber o dia e nem mesmo como os fatos ocorrerão, o que eles esperavam era que sua salvação estivesse garantida junto com a morada do Pai.
Concentrado naquilo que Deus tinha para sua vida, Leonardo mantinha com Jean o firme propósito de uma vez por semana ir até a praça próximo dali e falar sobre Deus para as pessoas que provavelmente estavam muito carentes de amor.
Existem vários tipos de pessoas que vão as praças, os que levam seus cachorros para passear, as pessoas que levam seus filhos para passear, casais que querem ficar sozinhos por um tempo, e pessoas que estão sozinhas demais, e são essas que tanto precisam de ajuda.
Provavelmente, uma pessoa só na praça não está lá só por que “achou aquele lugar maravilhoso e nada melhor que ficar ali admirando os pássaros comerem os restos de comida no chão”. Estão ali para refletir, para pensar sobre suas vidas e tomar decisões importantes, provavelmente ouvir sobre Deus naquele momento seria maravilhoso, com certeza isso lhes ajudaria a resolver seus problemas.
E assim Leonardo e Jean levavam a vida, todos os sábados iam à praça e conheciam a vida de várias pessoas sedentas por amor, uma vez enquanto pregavam para uma moça, ela desesperadamente começou a chorar e se ajoelhou clamando o perdão de Deus, a dois meses atrás ela havia feito um aborto por que seu namorado disse que somente assim ficariam juntos, mas após o ato ela nunca mais o viu e carregava essa morte dentro dela.
A vida da moça foi transformada quando conheceu a Cristo, seus dias de tristeza foram convertidos em alegria e em pouco tempo ela estava namorando e fazendo planos para se casar e finalmente ter filhos.
Os dois jovens tiraram um ano inteiro para se dedicar a Deus, entretanto durante essa caminhada Jean conheceu Lara, da qual em pouco tempo começou a namorar. Leonardo estava feliz pelo amigo, mas aquele relacionamento havia os afastado, e aos poucos a saudade de Verônica voltava a aumentar.
Cansado de esperar pelo seu retorno para finalmente lhe dizer algo, pegou um pedaço de papel e caneta e resolveu lhe escrever uma carta, adiantando por fim o que estava em seu coração.
“A Paz do Senhor Verônica.
Espero que esta carta chegue até você, me perdoe, demorei longos três anos para lhe dizer qualquer coisa, mas saiba que sinto muita falta de você, mas respeito à decisão que tomou para com Deus.
Sinto falta das tardes que passávamos juntos na praça, do tempo que separávamos para cuidar do grupo de jovens, eu sinto falta de estar do seu lado…
Não sei o que está fazendo nestes últimos meses, o que eu sei é que com certeza Deus está se agradando. Conheci um garoto chamado Jean que entrou na igreja depois que você foi para a Amazônia, nós nos tornamos grandes amigos e por meio desta amizade muitas vidas foram salvas. O triste é que agora ele está namorando e temos pouco tempo juntos, parece que agora a saudade que eu sinto por você aumentou.
Eu espero que você não tenha se esquecido de mim, por que eu não me esqueci de você e nunca me esquecerei, você é muito importante, e eu tenho certeza que este período longe foi muito importante para eu aprender a valorizar a mulher que estava do meu lado!
Estarei esperando ansiosamente a sua volta!
Fique com Deus minha eterna amiga Verônica!”
Com todo o cuidado Leonardo guardou a carta e levou até o correio, orando todos os dias para que a garota a recebesse.
Verônica, do outro lado do Brasil se concentrava e aprendia mais sobre a palavra de Deus para transmiti-la, junto com mais três missionários ela saía percorrendo os longos caminhos de mato até chegar a pequenos povoados, onde conversava e tentava ajudar ao máximo aquelas pessoas que pouco tinham.
Uma vez, enquanto visitava uma família em uma pequena casa, um garoto estranhamente começou a passar mal, a garota o pegou no colo e rapidamente eles entraram em contato com o hospital, mas devido a distância e difícil acessibilidade ao local seria impossível alguém ir até lá, somente de helicóptero, mas o garoto não era tão importante para “merecer” este atendimento.
Com a respiração fraca e a mãe desesperada, Verônica se sentia impossibilitada de fazer qualquer coisa, portanto, ajoelhou e orou pela vida daquele garoto, o menino dez minutos depois faleceu.
Tal cena não saía da cabeça da garota, enquanto ela pregava sobre um Deus que curava, restaurava e dava direito a vida eterna, um garoto no povoado havia morrido mesmo com toda a súplica dela por ele.
Na pequena casa onde estava dormindo, Verônica ajoelhou-se próximo a cama e pediu a Deus respostas sobre o que havia acontecido, de certa forma, ela sentia que o ocorrido estava contradizendo o poder de Deus.
Então, em silêncio e concentrada no que fazia, ouviu a voz de Deus sussurrando em sua cabeça “Não foi eu que causei a morte naquela criança, na verdade, eu lhe levei até lá para exercer o poder da cura e ensinar e mostrar para aquela senhora que eu sou o Deus que tudo pode, por isso você ensinou primeiros as coisas da qual Eu sou capaz de fazer, mas ela não creu, e enquanto você orava ela não desistia um momento sequer de pedir ajuda a outros deuses do qual ela cultuava, e em momento algum esses deuses puderam trazer a cura daquela criança que há tempos estava enferma”.
A garota chorou. Chorou pela falta de fé das pessoas, chorou pela vida do garoto que não pode ser salvo, ela sofreu por aqueles que não se importavam. Definitivamente ela estava sentindo um pouco da dor de Jesus.
Em meio a toda a tristeza e decepção consigo mesma, ela encontrou em meio às correspondências do povoado uma carta direcionada a ela, era a carta de Leonardo.
- Carta? Para você? – perguntou uma das missionárias.
- Consegue acreditar nisso? – respondeu Verônica, com um sorriso de ponta a ponta.
- Correspondências vindas de tão longe costumam se perder no meio do caminho até aqui, foi muita sorte sua! – disse a missionária enquanto se retirava da pequena sala de aula.
- Não é sorte, é Deus! – disse silenciosamente a garota, enquanto abria a carta.
Ela acompanhava os detalhes de cada letra formada como se tentasse entender como Leonardo estava fisicamente. O garoto sempre foi forte, portanto ela imaginava que ele não deveria ter um corpo muito escultural, talvez fosse até um pouco fora do peso, mas o importante é que ele se lembrara dela.
Ainda faltavam seis meses para que ela retornasse a sua casa, porém aquela carta lhe fazia ter mais ânimo para continuar enfrentando tudo e para enfrentar o que ainda estaria por vir.
Com muito zelo ela deixou aquele pedaço de papel debaixo de seu travesseiro, todas as noites antes de dormir ela relia, e tinha a sensação de estar mais próxima dele, mesmo tanto tempo longe não havia afastado o sentimento que ela sempre teve em seu coração.
Leonardo fazia o mesmo, orava todos os dias pela vida de sua amada e tinha em seu coração que quando ela voltasse, eles finalmente poderiam se casar e formar uma bela família.
Ainda tocando teclado e não estando mais sobre o comando do grupo de jovens – ele havia passado essa responsabilidade para seu amigo Jean e sua namorada – ele decidiu que durante aqueles seis meses de espera ele viajaria com sua mãe, e pacientemente ele esperaria pela volta de sua amada que estava breve a acontecer. Bem breve…

