DEBAIXO DO SOL ESCALDANTE – CAPITULO 1 – PARTE 1

Eram apenas duas crianças quando se conheceram. Ela ainda brincava de bonecas e ele começava a achar que carrinho era chato. Ela era branquinha com algumas sardas no rosto e cabelos ruivos enquanto ele era moreno e tinha uma cicatriz perto da boca devido a um tombo que levara.

Pouco se esperava de duas crianças que mal conseguiam falar, entretanto a vida delas seria o ponto de estabilização na fé de muitos cristãos.

Nos corredores da igreja da qual seus pais frequentavam todos ao redor se lembravam muito bem daquele garoto inquieto que não deixava de lado seu pequeno dinossauro do qual carregava em todos os lugares que ia.

Ela, sempre que podia, passava seu “gloss” e penteava os curtos cabelos lisos. O que menos se esperava daquelas duas vidas era que daquela inocente amizade nascesse um amor que atravessaria o mundo.

Os anos se passavam e cada vez mais aquelas duas vidas se aproximavam, era algo que nem mesmo os pais conseguiam entender, como se já houvesse um plano para os dois cumprirem juntos.

Verônica e Leonardo próximos de completar seus 12 anos andavam juntos à beira de um parquinho em uma praça, o tempo estava nublado e a pouca luz de sol que havia no céu parecia iluminar somente aquele local. Enquanto andavam, pequenos diálogos apareciam, até que por fim algo interessante surgiu daquela conversa:

- O que você pretende fazer no futuro? – perguntou Leonardo, observando os pequenos olhos negros da garota.

- Acho que ainda sou muito nova para pensar nisso.

- Mais você não pensa em nada?

- Penso… Eu acho…

- Pensa no que?

- Talvez eu seja modelo, não sei… E você?

- Quero ser bombeiro!

- Por quê? – perguntou a menina, pela primeira vez parecendo interessada na história.

- Tenho vontade de salvar vidas, acho emocionante!

- É talvez eu gostasse de fazer algo do tipo também…

- Não quer ser “bombeira”?

- Não quero fazer algo que eu precise correr risco de morrer!

- Então você nunca vai poder fazer algo para salvar a vida das pessoas.

- Faz sentido… Mas eu ainda acho que tenho tempo para decidir.

- Espero que você me fale quando isso acontecer.

Os dois sorriram. O olhar e o jeito de falar inocente não os deixavam perceber o que de fato acontecia com ambos, uma bela história de amor estaria por surgir.

Com o tempo que se passava, mais forte essa amizade se tornava, os cultos de jovens aos poucos começaram a ser presididos por eles, e tal era a entrega que em pouco tempo veio a Verônica a proposta de se tornar uma grande missionária na Amazônia.

Aos 17 anos e com muita coisa para se viver ainda, a garota trocou festas, amizades, vida social e a presença dos familiares por quatro longos anos longe de tudo e de todos, provavelmente seria uma imensa dor recompensada pelo enorme amor de Deus por aquela vida.

Durante essa ausência Leonardo percebeu que o que ele sentia pela garota era algo muito além de amizade, e que se aquilo realmente fosse à vontade de Deus aqueles quatro anos não seriam nada perto de uma vida inteira ao lado de seu grande amor.

O garoto seguiu sua vida, começou a tocar teclado na igreja e em pouco tempo já era um grande evangelista, as promessas dadas em sua infância começavam a se cumprir em um tempo de imensa luta.

Quando ele completou 19 anos sua mãe adoeceu gravemente, nem mesmo os médicos conseguiam descobrir o que de uma hora para outra havia levado a paralisação total das articulações daquela senhora. Com um pai cheio de compromissos, todo o peso daquela doença caiu sobre Leonardo, do qual precisava sempre estar atento a qualquer sinal que colocasse a vida de sua mãe em risco.

Durantes os meses que se passaram naquele ano a recuperação daquela senhora foi milagrosa, o amor com que o filho a tratava talvez tivesse grande importância em tudo aquilo. Todas as vezes que estava em oração, ele pedia a Deus pela vida de sua mãe e de sua querida amiga Verônica que muito aprendia estando em um lugar totalmente diferente de seu habitat.

Evangelizar para pessoas que pouco tinha para sobreviver era o que fazia com que a garota agradecesse todos os dias pelo que possuía, e se entregar para aquelas almas tão sedentas de amor era o que aquecia sua alma.

Nesse primeiro ano de convivência com os ribeirinhos a garota aprendeu muita coisa. Conheceu Laís, uma menina que aos quinze anos já tinha dois filhos dos quais viviam em total pobreza, a comida era pouca e as condições de higiene não eram das melhores, entretanto o brilho no olhar e a confiança de que ela poderia ter uma vida nova fazia com que Verônica tivesse o desejo de ajudá-la a realizar todos os seus sonhos.

Laís nunca estudou, não sabia ler e o único estado do país que ela conhecia era a Amazônia. Em pouco tempo a garota começou a frequentar a escola, conseguiu um emprego bem perto de sua humilde casa e resolveu seus problemas com os pais dos quais ela não via há quatro anos. Ver a vida daquela menina renovada era o que dava forças para que Verônica não desistisse da missão imposta a ela por Deus.

Mas a saudade apertava à medida que o tempo passava. Sem internet naquele lugar, a maneira mais fácil e provavelmente a única que teria era enviar uma carta para seus entes queridos.

Apropriando-se de um pedaço de papel que havia na escola da comunidade e um lápis, Verônica começou a escrever, expressando ali todos os sentimentos que a muito estavam guardados em seu interior.

(Continua…)

    

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