(Crônica cômica) Nunca feche o cruzamento!

Em uma pequena cidade do interior moravam três irmãos que eram famosos por estarem sempre discutindo. Quando lhes propunham uma ideia, um concordava, um discordava, e o outro não entendia. E assim viviam, sobrepostos à discordância constante que os dominava.

Certa tarde, o prefeito da cidade, precisando que alguns serviços fossem feitos, chamou o irmão mais velho e ordenou que fosse até a cidade vizinha (que era um pouco maior, e cujo prefeito era seu primo) para dar ênfase a uma placa de trânsito:

- Como assim dar ênfase, patrão?

- Bom, Seu João… Meu irmão disse que, no cruzamento em que a placa foi colocada, está havendo grande incidência de acidentes de carros.

- Grande acidência de incidentes de carros?

- Incidências de acidentes, Seu João! Significa que tem acontecido muitos acidentes naquele local, entendeu?!

- Ah, sim, muitos acidentes, sim sinhô!

- Sim, muitos acidentes… O que com certeza é uma fatalidade, porque a maioria dos que morreram eram eleitores do meu irmão… – disse o prefeito baixinho, mais para ele do que para João.

- E o que o sinhô quer que eu faça?

- Ah sim! Quero que vá até a placa, e pinte de vermelho ao redor da palavra mais importante da placa, entendeu?

- Pintar a palavra mais importante? Tá certo, então! Posso levar meus irmãos, sinhô?

- Seus irmãos? Por quê?

- Bom, o Pedro é o único que tem carro, e o Arnaldo é o único que tem tinta!

- Entendi… Nesse caso, pode levar os dois, sim! Mas o pagamento vai ser o mesmo, e você divide em três, pode ser?

- Será que o sinhô pode dividir pra mim? Não entendo desse negócio de matemática…

 

Uma hora depois, dentro do pequeno fusca azul-claro, estavam os três irmãos, a tinta e o pincel.

- E quanto o prefeito disse que vai pagar pelo serviço, João? – perguntou Arnaldo, o irmão mais novo.

- Cento e cinquenta reais.

- E mais a gasolina? – perguntou Pedro, o dono do carro.

- Disso ele não falou nada…

 

Então, depois de uma viagem rápida, finalmente chegaram ao tal cruzamento. Estranharam um pouco a movimentação da cidade, que afinal possuía mais cidadãos do que eles imaginavam.

- Olha quanto carro! – exclamou Arnaldo.

- Deve ser por isso que tem tanto acidente…

- E onde está a placa? – perguntou João.

- Lá no alto! – respondeu Pedro.

- O que está escrito ali?

- “Nunca feche o cruzamento.”

- Ótimo, agora vai no carro e pega a escada.

- Que escada?

 

Duas horas depois, chegavam eles novamente ao cruzamento. Tiveram que voltar para sua cidade para pegar a tal escada, já que não imaginavam que a placa era tão alta. No começo ficaram enfurecidos, mas agora tudo o que queriam era terminar o serviço e voltar para suas redes e suas cervejas.

- Eu pensava que era aquelas placas de colocar no chão, igual a que tem na frente do bar do Juca – disse João o caminho todo, para se defender.

- E eu só espero realmente que o prefeito pague a maldita gasolina – dizia Pedro, o único que ainda estava um pouco bravo.

- Enfim, chegamos! Vamos logo pintar essa maldita placa e ir embora daqui!

- E qual palavra nós vamos pintar mesmo? – perguntou João.

- Feche – respondeu Pedro.

- O cruzamento – disse Arnaldo.

- Pois eu achava que era “Nunca”! – falou João, terrivelmente confuso agora.

- E o que leva você a pensar que “Nunca” é a palavra mais importante? – perguntou Pedro.

- Ora, porque o mais importante é que o sujeito não feche o cruzamento em hipótese alguma, de nenhuma maneira, em nenhuma hora! E você, por que acha que “feche” é a palavra principal?

- É claro que é por causa do ato, não é? O que o sujeito não pode fazer em hipótese alguma no cruzamento? Fechar! Ele pode fazer de tudo, menos fechar!

- Ainda não concordo com isso… Mas e você, Arnaldo? Por que acha que “o cruzamento” é a parte mais importante dessa placa?

- Isso é fácil! Por que é o que o sujeito não pode fechar em hipótese alguma: o cruzamento! Ele pode fechar uma rua, uma avenida, a frente de uma casa, mas nunca o cruzamento, entende?

- Discordo de você – disse João.

- E eu de você – disse Pedro para João.

- E eu não concordo com nenhum de vocês! – gritou Arnaldo.

 

Ficaram tanto tempo discutindo isso que nem se lembram que horas saíram de lá. No dia seguinte, o prefeito que ordenou o serviço resolveu ir até o cruzamento verificar como tinha ficado a tal placa. Furioso, não pagou nem a gasolina de João e seus irmãos: a placa estava toda pintada de vermelho.

    

Gustavo Galli
Um jovem interessado em expandir todas as suas habilidades. Além da paixão por ler e escrever, nutre, também, um amor profundo pela música, desde o puro Rock 'n' Roll a profunda Música Clássica.

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One Response to “(Crônica cômica) Nunca feche o cruzamento!”

  1. Carolina Belisario

    ago 27. 2012

    Você tem muito talento!!

    Reply to this comment

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