Na primeira parte do livro Fama e Anonimato (Fame and Obscurity), Gay Talese tenta reconstituir a instigante cidade de Nova York com muita minúcia. A cada detalhe que acrescenta, titubeando entre o movimento e a passividade da metrópole, mais interessante torna-se a não-ficção escrita nos anos 60.
Na obra de Jornalismo Literário, não faltam adjetivos atribuídos à Nova York: despercebida, excêntrica, encantadora, inusitada. Nota-se assim, um verdadeiro deslumbramento do autor pela localidade. Todavia, ainda que apresente uma visão jovial, não hesita em mostrar quão destrutiva a cidade pode se tornar. Um exemplo é quando o realismo de Talese quebra a aura mística que ele próprio criou, ao citar a alegria dos moradores dos predinhos de Brownstone em ouvir o negro da transportadora Dard’s tocar um piano. Como a obrigação do trabalhador era empurrá-lo para dentro do caminhão, a melodia durou pouco. Seu ofício era fazer a mudança, a música vinha depois.
O autor utiliza-se com frequência de dados: números relacionados às ocupações pessoais, estimativas dos homicídios, hábitos dos habitantes mensurados por dígitos, valores atribuídos aos suicidas, entre outras curiosas estatísticas. É interessante notar como sua audácia ao manipulá-las torna suas interpretações incomuns e constroem um cenário propício para a continuidade de sua obra, que mistura a boa escrita com um olhar incomum sobre o cotidiano.
Afinal, A ponte, segunda parte da narrativa, beneficia-se da contextualização criada pelas páginas anteriores e começa por mostrar a vida menos colorida que alguns habitantes de NY levam. Estes são os boomers, construtores de grandes obras públicas, das quais as pontes são enfatizadas. São trabalhadores jovens, fortes, rudes, inconstantes e que já viram a morte de perto, devido aos recorrentes acidentes de trabalho. Esses episódios fazem com que a construção das pontes, que ligam todas as coisas, menos suas próprias vidas, seja como um combate diário.
Gay Talese sugere que há como ser criativo retratando perfis individuais, ainda que, sob um primeiro olhar, possam parecer monótonos. Mesmo assumindo o papel de “observador neutro”, conta com as reações de seus entrevistados, proporcionadas pelo diálogo franco e a observação de quem está na hora certa e no lugar certo. De fato, talvez o perfil de Frank Sinatra não tenha sido feito na hora certa, pois naquele momento o cantor estava com um impertinente resfriado. No entanto, foi por ter estado nos locais propícios que Gay conversou com dezenas de pessoas que tinham contato com o cantor e, assim, escreveu páginas originais sobre Sinatra, sem a direta interferência deste. O autor defende o insight que deriva de um exame profundo, de uma análise perspicaz e do trabalho de campo jornalístico.
O escritor aprendeu a reportar o que se passa com as outras pessoas. Josua Logan, PeterO’Toole, Frank Costello, Joe Louis e outras personalidades passaram a ser vistas de outra maneira após a publicação da coletânea de textos jornalísticos, que apesar de antiga, ainda fala ao leitor contemporâneo. São histórias, declarações e detalhes comportamentais, que não fogem à Gay durante seus encontros com os entrevistados, responsáveis pelos resultados interessantes expostos na terceira parte do livro.
Gay Talese foi à rua. Fuçador e sensível, pode-se dizer que se preocupa com a apuração e a veracidade de suas informações, uma vez que vai buscá-las pessoalmente. Assim, é possível afirmar sua serventia como exemplo para muitos jornalistas atuais que, muitas vezes por terem tecnologias à disposição, deixam de cumprir seus papeis, atentam contra à ética e abrem espaço ao mau jornalismo.

